Quase 4 em cada 10 adultos com sintomas de insônia usam remédios de 5 a 7 noites por semana, diz estudo brasileiro

  • 14/08/2026
(Foto: Reprodução)
Quase 4 em cada 10 adultos com sintomas de insônia usam remédios de 5 a 7 noites por semana, diz estudo Adobe Stock Mesmo entre pessoas que procuram uma alternativa não farmacológica para tratar a insônia, o uso frequente de remédios para dormir é uma realidade. Dos 1.158 adultos com sintomas de insônia avaliados em um estudo brasileiro, 442 — cerca de 38% — disseram tomar esses medicamentos de cinco a sete noites por semana. Ao todo, 60% dos participantes relataram algum uso atual de remédios para dormir. Entre os medicamentos, os chamados medicamentos Z, categoria que inclui o zolpidem, foram os mais frequentes, seguidos pelos benzodiazepínicos e antidepressivos sedativos. O zolpidem, especificamente, foi o remédio mais citado tanto entre quem tomava medicamentos ocasionalmente quanto entre quem fazia uso contínuo. Outro dado chamou a atenção dos pesquisadores: entre os participantes que disseram tomar remédios para dormir, 40% relataram uso sem prescrição médica. Em entrevista ao Bem-Estar, a coordenadora do estudo, Renatha El Rafihi-Ferreira, ressalta que os medicamentos podem ter um papel importante no tratamento e não devem ser demonizados. A indicação, porém, precisa ser individualizada e feita depois de uma avaliação profissional. Como fazer a higiene do sono? Veja quais são os maiores inimigos de uma noite restauradora Como fazer a higiene do sono? Veja quais são os maiores inimigos de uma noite restauradora A pesquisadora também chama a atenção para um ponto importante: quem já toma remédios regularmente não deve interromper o tratamento por conta própria. “O uso prolongado pode ser associado a tolerância, a dependência. Por isso que é muito importante ter um acompanhamento e reavaliação médica”, afirma. Publicado na revista científica Sleep Science, o estudo foi realizado por pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo (USP) e ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. O objetivo foi investigar quais medicamentos eram utilizados por pessoas com sintomas de insônia que buscavam tratamento psicológico e quais fatores estavam associados ao uso dessas substâncias. 38% tomavam remédios de 5 a 7 noites por semana Os pesquisadores perguntaram aos participantes se eles usavam medicamentos para dormir e, em caso afirmativo, com que frequência. Do total de 1.158 participantes, 694, ou 60%, relataram uso atual de medicamentos para dormir. Isso não significa, porém, que todos tomassem os remédios com a mesma frequência. Os pesquisadores dividiram os usuários em dois grupos. O uso contínuo foi definido como o consumo em cinco ou mais noites por semana, enquanto o uso ocasional correspondia ao consumo em menos de cinco noites por semana. Entre os 694 usuários, 442 tomavam medicamentos de cinco a sete noites por semana e foram classificados como usuários contínuos. Eles representam cerca de 38% de toda a amostra. Outros 252 participantes faziam uso ocasional, de uma a quatro noites por semana. Zolpidem foi o medicamento mais citado O zolpidem foi o medicamento individual mais frequente nos dois grupos. Entre os 252 participantes classificados como usuários ocasionais, 33% relataram usar zolpidem. Entre os 442 usuários contínuos, o percentual chegou a 46%. Outros medicamentos apareceram com maior frequência entre os usuários contínuos. A trazodona, por exemplo, foi relatada por 18% desse grupo, ante 9,5% dos usuários ocasionais. Para a pregabalina, os percentuais foram de 11% e 2%, respectivamente; para a quetiapina, de 17% e 8,7%. A mirtazapina também apareceu com maior frequência entre os usuários contínuos. Já relaxantes musculares e dimenidrinato tiveram o comportamento inverso. Os relaxantes musculares foram relatados por 37% dos usuários ocasionais e 14% dos contínuos. Para o dimenidrinato, os percentuais foram de 17% e 6,1%, respectivamente. Considerando toda a amostra, houve 311 relatos de medicamentos Z, 274 de medicamentos vendidos sem receita, 263 de benzodiazepínicos, 171 de antidepressivos sedativos, 100 de antipsicóticos, 58 de anticonvulsivantes e 11 de agonistas dos receptores de melatonina. As categorias não eram mutuamente exclusivas, portanto uma mesma pessoa poderia relatar mais de um medicamento. Segundo Renatha, o zolpidem pode ser eficaz quando bem indicado, mas é recomendado para uso limitado e de curto prazo. “O uso prolongado pode ser associado a tolerância, a dependência”, explica a pesquisadora, reforçando a importância do acompanhamento e da reavaliação médica. 40% dos usuários relataram tomar medicamentos sem prescrição Entre os participantes que relataram usar medicamentos para dormir, 420, ou 60%, disseram que o remédio havia sido prescrito. Outros 274, equivalentes a 40%, afirmaram fazer uso sem prescrição médica. Entre aqueles que faziam uso sem prescrição, os produtos mais rela tados foram anti-histamínicos vendidos sem receita e relaxantes musculares. Já entre os participantes com prescrição, medicamentos Z e benzodiazepínicos apareceram com maior frequência. Os pesquisadores não encontraram diferença significativa na gravidade da insônia entre quem usava medicamentos prescritos e aqueles que faziam uso sem prescrição. Na discussão do estudo, os autores afirmam que a proporção de participantes que utilizava medicamentos sem prescrição sugere que a automedicação pode ter participação no uso disseminado de substâncias para dormir no Brasil. Segundo eles, esse comportamento pode refletir barreiras estruturais ao acesso a cuidados especializados para problemas do sono e desigualdades mais amplas no acesso aos serviços de saúde. Quanto mais grave a insônia, maior a chance de uso de medicamentos A gravidade da insônia foi o principal fator associado ao uso de medicamentos para dormir. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram simultaneamente idade, sexo, escolaridade, estado civil, etnia, atividade física, gravidade da insônia e sintomas de ansiedade e depressão. A cada ponto adicional no Índice de Gravidade da Insônia (ISI), houve um aumento de 14% nas chances de uso de medicamentos para dormir. Os usuários de medicamentos apresentaram pontuação média de 19,93 no índice, contra 17,71 entre os não usuários. Eles também apresentaram pontuações médias mais altas de ansiedade e depressão nas comparações iniciais. Depois que os pesquisadores consideraram conjuntamente as diferentes variáveis no modelo estatístico, porém, idade, sexo, escolaridade, estado civil, atividade física e pontuações de ansiedade e depressão não apresentaram associação estatisticamente significativa com o uso de medicamentos. Participantes brancos tiveram maior chance de usar medicamentos Além da gravidade da insônia, os pesquisadores encontraram uma associação com a etnia. Os participantes que se identificaram como brancos apresentaram 55% mais chances de usar medicamentos para dormir em comparação com participantes pretos e pardos. Os pesquisadores verificaram se a diferença poderia ser explicada por uma maior gravidade da insônia entre os participantes brancos, mas não encontraram evidências disso. A pontuação média no índice de gravidade da insônia foi de 19,21 entre participantes pretos e pardos e de 19,02 entre brancos — diferença que não foi estatisticamente significativa. Os autores apontam que o padrão pode estar relacionado a diferenças socioculturais, acesso aos serviços de saúde, práticas de prescrição e disponibilidade de terapias comportamentais para o sono, além de desigualdades estruturais mais amplas. O estudo, no entanto, não permite determinar a causa dessa diferença. Terapia comportamental é a primeira opção Embora os medicamentos apareçam com frequência entre os participantes, a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) é considerada tratamento de primeira linha. Renatha explica que o tratamento começa por uma avaliação das características de cada paciente e dos fatores que podem estar mantendo o problema. Na TCC-I, são trabalhados comportamentos e hábitos relacionados ao sono, como a rotina e os horários de dormir e acordar, mas também a maneira como a pessoa pensa sobre o próprio sono e se relaciona com ele. A coordenadora ressalta que apenas fazer a chamada “higiene do sono” não é suficiente para tratar a insônia. Segundo ela, uma terapia baseada em evidências não significa aplicar a mesma receita a todos. Antes de definir a intervenção, é necessário avaliar o contexto do indivíduo, incluindo rotina de trabalho, horários, condições de moradia, ambiente em que dorme, dinâmica familiar e condições sociais relacionadas à saúde física e mental. “Uma terapia comportamental com evidências não significa aplicar a mesma receita para todo mundo”, afirma. 'Quanto mais a pessoa tenta se obrigar a dormir, mais vigilante pode ficar' A coordenadora do estudo explica que o sono é um processo fisiológico e que tentar forçá-lo pode ter efeito contrário ao desejado. “Quanto mais a pessoa tenta se obrigar a dormir, mais vigilante, desperta e preocupada ela pode ficar”, afirma Renatha. Segundo ela, o tratamento procura restabelecer condições que favoreçam os mecanismos naturais do sono. Isso pode envolver manter horários regulares para dormir e acordar, permanecer ativo física e mentalmente durante o dia e voltar a associar a cama principalmente ao sono e à atividade sexual. Depois de uma noite ruim, explica a pesquisadora, é comum que a pessoa tente compensar ficando mais tempo na cama, acordando mais tarde, cochilando durante o dia ou indo se deitar mais cedo na noite seguinte. Segundo ela, esse comportamento pode favorecer a manutenção da insônia. “A qualidade do sono é um processo de 24 horas, então desde a hora que você acorda, você está investindo no seu sono”, afirma. Quando o remédio é indicado? Apesar da recomendação de tratamentos comportamentais, Renatha ressalta que isso não significa que os medicamentos não tenham espaço no cuidado de pacientes com insônia. “O medicamento pode ter um papel importante e não deve ser demonizado”, afirma. Segundo a coordenadora, a indicação deve ser individualizada e feita após avaliação médica. O profissional deve considerar a presença de outros distúrbios do sono, transtornos psiquiátricos ou condições clínicas associadas, além da idade, de outros medicamentos utilizados e dos riscos de cada medicação. A partir dessa análise, pode definir se há indicação farmacológica, qual medicamento usar e por quanto tempo. Para quem já faz uso regular, a orientação é não suspender o medicamento sozinho. “Quem já utiliza regularmente não deve simplesmente interromper sozinho, precisa então de um acompanhamento médico para isso”, diz Renatha. Estudo não representa todos os brasileiros Os pesquisadores ressaltam uma limitação importante: a amostra não é representativa da população brasileira em geral. O estudo analisou 1.158 adultos, com idade média de 38,9 anos e idades entre 18 e 59 anos. A maioria era mulher, tinha ensino superior e morava na Região Sudeste. O recrutamento ocorreu entre março de 2021 e julho de 2022 por meio de anúncios em redes sociais divulgados pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. Os participantes eram pessoas com sintomas de insônia que buscavam tratamento psicológico não farmacológico e foram recrutados por um protocolo de pesquisa realizado em um serviço universitário especializado em sono. Além disso, a amostra tinha escolaridade elevada e era predominantemente branca. O recrutamento por plataformas digitais também pode ter favorecido a participação de pessoas com maior escolaridade, familiaridade com ferramentas digitais e motivação para buscar tratamento psicológico. Por isso, os 60% que relataram uso atual de medicamentos e os 38% que tomavam essas substâncias de cinco a sete noites por semana não representam a prevalência entre todos os brasileiros nem entre todas as pessoas com insônia no país. Os números descrevem especificamente a população estudada. Outra limitação é que as informações sobre medicamentos e sintomas foram fornecidas pelos próprios participantes. Os pesquisadores não verificaram prescrições, doses nem a duração total dos tratamentos. Além disso, como o estudo é transversal, os resultados permitem identificar associações, mas não estabelecer relações de causa e efeito. Autores defendem ampliar acesso a tratamentos não farmacológicos Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de avaliar sistematicamente o uso de medicamentos entre pacientes com sintomas de insônia, principalmente aqueles que procuram alternativas não farmacológicas. Os autores defendem que profissionais avaliem cuidadosamente a indicação, a duração e a necessidade de continuidade dos hipnóticos, além de possíveis efeitos adversos e padrões de uso ao longo do tempo. O estudo também aponta a necessidade de ampliar o acesso a intervenções não farmacológicas baseadas em evidências, como a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia, e integrar a psicoterapia ao manejo responsável dos medicamentos. Segundo os pesquisadores, essas abordagens podem contribuir para reduzir o uso inadequado de hipnóticos e melhorar a qualidade do tratamento da insônia no Brasil.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/08/14/quase-4-em-cada-10-adultos-com-sintomas-de-insonia-usam-remedios-de-5-a-7-noites-por-semana-diz-estudo-brasileiro.ghtml


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